Rio, destino preferencial de refugiados no final dos anos 1990

Por Gustavo Barreto (*)
Matéria no diário carioca O Globo, 3 de janeiro de 1999

Matéria no diário carioca O Globo, 3 de janeiro de 1999

Contrastando com o trágico cenário internacional, ainda no final dos anos 1990 o Brasil é um país que pouco recebe estrangeiros, como exposto no jornal carioca O Globo em matéria de 3 de janeiro de 1999, mais especificamente sobre os refugiados. “Rio se torna a capital brasileira dos refugiados”, diz o título, completando com a chamada “Quase 1.500 estrangeiros que pediram asilo no país vivem no estado, o dobro dos de São Paulo”.

A matéria começa com um relato dramático sobre uma mulher palestina e sua família, que fugiram dos Emirados Árabes no início de 1991 em meio à possibilidade de conflitos na região (o país localiza-se entre o Iraque e o Kuwait). A personagem, de 33 anos, vivia à época da matéria em Duque de Caxias como gerente de uma sapataria e era um das 1.498 estrangeiros que pediram asilo no país e viviam no Rio de Janeiro.

A matéria informa ainda que São Paulo é o segundo estado que mais recebe refugiados, 782 no total. O diário carioca já parece mostrar uma tendência: a quantidade de estrangeiros que buscam refúgio no Rio mais do que quadruplicou no ano anterior: de 80 em 1997 para 354 em 1998. A matéria não compara diretamente os dados brasileiros com os internacionais, o que mostraria a evidente disparidade.

O Brasil possuía, até 1997, uma legislação ainda mais atrasada em relação ao tema, como informa o próprio jornal: “Pelas leis brasileiras, depois do pedido de refúgio e da análise do caso – o que leva seis meses – o estrangeiro acolhido formalmente pode trabalhar ou estudar no país. Desde 7 de setembro, quando o presidente Fernando Henrique sancionou a lei 9474/97, a Convenção de Genebra passou a ter que ser cumprida à risca. Qualquer estrangeiro que desembarque no Brasil alegando perseguição em seu país por motivo de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas tem o direito de pedir refúgio”.

Em outro momento, o diário dá uma ideia, de modo indireto, de como o Brasil é um baixíssimo receptor de imigrantes fugindo de perseguições e temores de todo tipo. Só a Libéria, diz o diário, “já produziu (sic) nos últimos anos 750 mil refugiados em todo o mundo. No Rio, vivem hoje 130 liberianos”. A personagem, desta vez, é um mecânico de 29 anos que fugira da Libéria em meio à guerra civil rumo a Angola, encontrando outro cenário de conflito neste país. “Orientado por um amigo marinheiro, veio para o Rio no porão de um navio”. O liberiano, desempregado, diz ao jornal: “Aqui a vida não é fácil, mas não se compara ao que eu passava no meu país”.

O então diretor da Cáritas no Rio – ONG ligada à Arquidiocese que presta assistência aos refugiados – credita a preferência pelo Rio à grande quantidade de escalas das companhias aéreas na cidade e à “fama internacional”. Ele informa que a maioria dos asilados é de “homens angolanos, entre 21 e 35 anos e solteiros”.

[Fotocópia do jornal: Cáritas Rio, http://on.fb.me/1A7cIkm]

(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_), 39, é jornalista, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (www.facebook.com/gustavo.barreto.rio)

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