Revolta na hospedaria de imigrantes em 1889: reprimida a ‘desordem’

Por Gustavo Barreto (*)
Imigrantes portugueses no pátio interno da Hospedaria de São Paulo, no ano de 1915. Acervo do Memorial do Imigrante, São Paulo

Imigrantes portugueses no pátio interno da Hospedaria de São Paulo, no ano de 1915. Acervo do Memorial do Imigrante, São Paulo

Uma revolta na hospedaria de imigrantes é relatada pelo jornal A Província de S. Paulo, em sua edição de 29 de janeiro de 1889. O diário paulistano não esconde seu descontentamento com a “desordem”. Registra o jornal: “Infelizmente, apezar das acertadas providencias tomadas pela directoria da Promotora e pela superintendencia da estrada ingleza, ainda estes ultimos dias se têm dado scenas tumultuosas lá para os lados da hospedaria de immigrantes”.

A revolta fez com que o desembargador chefe da polícia, diz o jornal, comparecesse imediatamente ao local, mas assim que chegou “estavam os animos inteiramente calmos”. No entanto, quando voltou, “alguns individuos entraram no pateo, e aconselharam os immigrantes á desordem”, levando alguns grupos a promoverem “grande gritaria”.

Com a chegada de uma “força” ao local, registra o jornal, “travou-se um conflicto que durou alguns minutos”, com “algumas pessoas” sendo presas e depois soltas “a pedido dos immigrantes”. O desembargador, ao saber do ocorrido, “voltou de novo á hospedaria e encontrou o vastissimo pateo totalmente apinhado de immigrantes e povo curioso”.

As praças de cavalaria que acompanhou o chefe da polícia, registra o diário, ao chegar ao local “foram recebidas por pedradas que partiam de uma venda próxima á hospedaria. O jornal relata que três italianos foram presos e seriam processados por “offensas physicas”. A Província informa as providências do chefe da polícia: “mandou fechar as vendas mais proximas, dissolveu o grande ajuntamento do pateo, prohibiu o transito dos bondes, fechou as cancellas do edificio e ahi poz sentinellas que só permittisem a entrada aos immigrantes”.

Destaca-se que, assim como em muitas matérias observadas nesta pesquisa em dois séculos cobertos, o jornal não informa em momento algum porque ocorreu a revolta. A nota limita-se a descrever a “desordem” e a ação repressiva, a partir tão somente do relato da autoridade policial. Por que ocorreu a revolta? Por esta matéria, é impossível saber.

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Na mesma página, o jornal elogia o inspetor de higiene pela ampliação da vacinação contra a febre amarela “ás pessoas que acreditando na medida preservativa da terrivel molestia, tiverem de estacionar na côrte [o Rio de Janeiro], actualmente”.

O inspetor também pede ao governo provincial de São Paulo para que sejam criados alojamentos suplementares para os imigrantes – em Santos, Campinas e no Bom Retiro, na capital paulista – “afim de evitar o accumulo de immigrantes na hospedaria do Braz onde já existem cerca de 11 000”, além de pedir que seja alugada alguma casa “para servir de Lazareto1” nas proximidades da hospedaria, “para os lados da Moóca, afim de evitar o transporte de contagiados pelo centro da cidade”.

O inspetor pede ainda equipamentos apropriados de “prophylaxia e desinfecção como manda a lei”, alegando ser este o motivo pelo qual os imigrantes se acumulavam nas hospedarias e não estariam sendo encaminhados para as fazendas. Diz o jornal ser “justo” o “receio que têm os fazendeiros de importando-os, importarem com elles, diversos contagios, como todos os dias está acontecendo”. Conclui o jornal: “Louvamos o sr. dr. inspector de hygiene por esse acto que vem mais uma vez confirmar o seu provado zelo pela saúde publica”.

NOTA

1 Nome da época para o hospital de quarentena para pacientes com doenças contagiosas.

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(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_) é jornalista. Acesse também pelo Facebook (www.facebook.com/gustavo.barreto.rio)

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