Lindolfo Collor: ‘Sair do empirismo da liberdade desordenada para a organisação racional da immigração’

Por Gustavo Barreto (*)

“Devemos, pois, estarmos alerta. O Brasil deve e tem que ser, primeiramente, dos brasileiros”, diz um leitor d’O Globo em 1930. A Era Vargas tem início. Por Gustavo Barreto (*)

Estamos em 1930 e desde o dia 3 de novembro Getúlio Vargas já estava no poder, em seu “Governo Provisório” que duraria até 1934. Os jornais discutiam intensamente a questão trabalhista, com uma compreensível preocupação afetando os imigrantes, dada a orientação nacionalista do novo governo.

Guilherme D. Neumann escreve ao 'Globo'

Guilherme D. Neumann escreve ao ‘Globo’

O jornal O Globo de 22 de dezembro do mesmo ano reproduz a opinião de um leitor – identificado como Guilherme D. Neumann – as chamando no entanto de “oportunas considerações” a uma lei que “ampara o empregado brasileiro”, e demonstrando portanto ser essa a sua opinião.

O texto comemora a criação do Ministério do Trabalho, criado no dia 26 de novembro, lembrando que em todos os governos passados resolviam-se as “queixas justas do nosso povo” no “Palácio da Polícia”. Reclamava da opressão anteriormente exercida pelos governantes , uma lacuna preenchida pela Nova República, diz o autor. O artigo elogia o então novo ministro, Lindolfo Collor – avô de Fernando Collor e cujos pais eram descendentes dos primeiros imigrantes alemãs –, afirmando serem “suas medidas as mais acertadas” a partir de sua “capacidade de acção e conhecimento de causa”.

“A suspensão temporaria de immigração, ou regulamentação desta, era o ponto capital para levar o braço nacional, que effectivamente quizesse trabalhar, aos campos a atacar os trabalhos de nossa lavoura; esta providencia já foi tomada”, comemora o autor.

Outro ponto, lembra o articulista, a porcentagem máxima do “elemento nacional, quer em numero, quer em valores de vencimentos e categorias de funções de empregados a serviços de firmas estrangeiras estabelecidas no paiz”. Argumenta o autor, se afirmando descendente de estrangeiro, que seus avós receberam do imperador terras para cultivar e tirar “dellas a percentagem do proveito que lhes foi doado. Assim colonisaram-se muitas das nossas principaes cidades”.

Com a República, diz, veio o “abuso”. O estrangeiro, acusa, não quer mais “demandar aos campos da lavoura. Sem recursos de especie alguma, localisaram-se em todas as nossas cidades, não só preterindo os cargos que deviam pertencer antes ao nacional, como tambem explorando toda a sorte de trabalhos (…), fazendo, com prejuízo para os filhos do paiz, fortunas mysteriosas em curtos lapsos de tempo”.

O autor acusa ainda as empresas de preterirem “sem-vergonhadamente” os brasileiros e “chegam a mandar vir de seus paizes todos os auxiliares, que empregam nos melhores cargos”. O autor diz que, se preciso, pode expor dois casos ocorridos com ele próprio. E por que teria sido preterido? “Apenas porque” – questiona – “o commercio estrangeiro, na sua maioria, entende que nós brasileiros devemos apenas sermos comandados?”

A um jornal português – não identificado – que questiona as medidas do novo governo, o autor pergunta em resposta: “Acaso a immigração demasiada de portuguezes para o Brasil, preterindo excessivamente os logares, nas cidades, que devem pertencer, primeiramente, aos brasileiros, e as contínuas e grandes remessas de dinheiro que esses elementos fazem para a ”Terra”, não prejudica immensamente a situação financeira, e, consequentemente, cambial de” nossa Patria?”

Guilherme D. Neumann pede que “todos os brasileiros” se interessem pela fiscalização da medida que regulariza a “percentagem do elemento nacional a serviço das firmas estrangeiras”, considerando “escandalosa” a admissão de estrangeiros e a “preterição do nacional”.

“Devemos, pois, estarmos alerta. O Brasil deve e tem que ser, primeiramente, dos brasileiros”, conclui o autor, em carta publicada no dia 22 mas assinada como de 17 de dezembro de 1930.

O nacionalismo era tamanho que o clima para os estrangeiros não era dos melhores. Uma nota no mesmo O Globo dois dias depois, no dia 24 de dezembro, expõe uma curiosa reclamação contra uma empresa portuguesa que realizava obras à rua Frei Caneca, número 95, sobre a suposta “recusa de trabalho a nacionaes”. Os responsáveis pela obra conta o caso ao diário carioca, que publica a versão sob o título de “A questão dos sem trabalho”. Informa o jornal que “deram o seu depoimento sincero sobre o que ali occorrera”.

“Lá chegara primeiramente um cavalheiro, pedindo serviço. Responderam-lhe que não havia vagas. Nisto, entram outros, inclusive dous soldados do exercito, sem armas, e insistem pela obtenção de empregos. Ambos replicam que nada podem fazer. E o incidente nisto ficou sem mais reflexo, que um começo de discussão, logo serenada”, descreve o jornal.

A “José Pinto Filho & C.” diz ao jornal que a empresa “não tem prevenções contra empregados”, concluindo: “Mesmo ha la muitos brasileiros. Mas o caso é que mesmo não ha serviços, ali, para mais gente”.

O início da gestão de Lindolfo Collor

A questão dos direitos dos trabalhadores estrangeiros volta à pauta do jornal O Globo na edição de 13 de agosto de 1931, como já vinha acontecendo desde a chegada de Vargas ao poder. O minsitro do Trabalho responsável pela mudança na legislação é Lindolfo Collor.

Diz o extenso título da matéria: “Paiz tradicionalmente hospitaleiro, o Brasil ha de sempre acolher com enthusiasmo todos os filhos de outras terras que desejarem collaborar no seu progresso!” A exclamação no título já dá o tom de apoio à lei – o decreto 19.482 de 12 de dezembro de 1930 –, conforme se confirma na chamada do jornal: “Como o regulamento da já famosa lei dos dous terços concilia o amparo ao trabalhador nacional com os interesses legítimos da lavoura e com o respeito de todos os direitos adquiridos”.

Fotocópia de trecho da edição de 13 de agosto de 1931 do jornal 'O Globo'

Fotocópia de trecho da edição de 13 de agosto de 1931 do jornal ‘O Globo’

O tema é escorregadio, conforme fica claro na longa descrição do diário carioca de tendência liberal, que lembra as “consequencias indirectas que nos poderiam advir do emprego de formulas que, protegendo a todo transe o trabalho nacional, animassem lá fora uma atmosphera de prevenções contra o paiz, retrahindo as iniciativas do estrangeiro, pondo-o de sobreaviso contra os excessos de um nacionalismo tanto mais facil em culminar nas soluções radicaes quanto mais prolongado e criminosos havia sido até então o esquecimento em que deixaramos o trabalhador brasileiro, o desamparo a que o lançaramos na concorrencia com os estrangeiros que, em vez de cultivarem a terra, vinham procurar collocação nas cidades, e disputal-a ao nacional, aggravando, senão creando, o problema dos sem trabalho”.

Na mensagem enviada a Vargas, publicada pelo jornal, Lindolfo cita as supostas experiências internacionais para argumentar em favor da lei: “Não tenho duvida em affirmar que nós somos, em tal materia, um dos ultimos paizes a assentar medidas normativas geraes, encaminhadas no sentido de defender o trabalhador nacional da concorrencia do estrangeiro”.

Justificando-se a posição a partir de supostas práticas europeias, o objetivo final é escolher melhor “os elementos que, por suas qualidades profissionaes, preencham as lacunas de mão de obra nacional”. Citando a Organização Internacional do Trabalho (OIT) – pelo seu secretariado, o Bureau Internacional do Trabalho –, Lindolfo sugere por meio da mensagem que “os paizes americanos não procuram mais attrair todos os elementos da população, venham de onde vierem, porquanto substituiram a liberdade pela organisação”.

Lindolfo Collor era de fato habilidoso em sua argumentação, citando legislações da Europa e dos Estados Unidos, que conhecia. Aponta que a lei não faz oposição à imigração destinada à lavoura, pecuário e indústrias extrativistas, citando o artigo.

Lindolfo Collor (de óculos) sendo nomeado ministro, junto com outras personalidades, por Getúlio Vargas, em 3 de novembro de 1930. Foto: Revista Paratodos n. 621, página 27

Lindolfo Collor (de óculos) sendo nomeado ministro, junto com outras personalidades, por Getúlio Vargas, em 3 de novembro de 1930. Foto: Revista Paratodos n. 621, página 27

“O que se faz por via da nossa legislação actual é sair do empirismo da liberdade desordenada para a organisação racional da immigração”, diz, apontando que apenas os “imigrantes industriais” seriam afetados com o limite de um terço de postos ocupados em atividades industriais e comerciais. “Nada mais comprehensivel, comparado o nosso procedimento com o de outros paizes. Em face dos nossos interesses, nada mais justo.”

O trabalho estrangeiro, continua o jornal em sua longa exposição dos argumentos do ministro Collor, é normalmente proibido e só excepcionalmente aceito, enquanto em alguns outros países a limitação imposta é entre 10 a 40% – o Brasil, portanto, seria mais generoso que a maioria dos demais países. Estariam excluídos, ainda, os estrangeiros com cônjuge brasileiro e com filhos que moram há mais de dez anos. Uma restrição que visava, certamente, privilegiar a grande quantidade de antigos imigrantes com alguma história no país – como a própria família de Lindolfo.

A exposição do ministro, “que se estende por mais de uma dezena de folhas longas”, é exaltada pelo diário carioca e retoma a ideia – ignorando décadas de uma política racista eurocêntrica – de que o Brasil é “tradicionalmente hospitaleiro” e que não abandonará “suas normas de bom acolhimento a todos aquelles que queiram collaborar no nosso progresso moral e material”.

Essa suposta hospitalidade, no entanto, “não póde permittir tambem que as difficuldades economicas e sociaes de outros paizes venham aggravar os nossos proprios problemas que, si não ostentam ainda a gravidade que lhes é peculiar em outros paizes, nem por isso merecem menos a cuidadosa attenção do nosso Governo”.

O ufanismo característico do momento político é notável no discurso de Lindolfo em relação ao trabalhador brasileiro – e tão somente ao brasileiro: “Nunca, até hoje, as nossas legislações haviam curado do trabalhador nacional, modelarmente disciplinado, amante da sua Patria, de que se orgulha e que tem sabido defender nos campos de batalha”. O trabalhador brasileiro vira, nessa versão, “resignado e dócil”, “laborioso e humilde”. Trata-se de alguém que “na Colonia, no Imperio e na Republica, nos dias de gloria e de abatimentos nacionaes, vibrou com as nossas alegrias e soffreu com as nossas dores”.

Dirigindo-se, agora diretamente, a Vargas, conclui: “A essa injustiça historica, V. Ex. no seu nobre descortinio de administrador, soube pôr agora o termo final. Tenho por indubitavel que os milhões de trabalhadores brasileiros saberão fazer justica a esse nobre acto do Governo de V. Ex.”.

(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_), 39, é jornalista, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (www.facebook.com/gustavo.barreto.rio)

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