Guerra civil nos EUA é ‘magnífica oportunidade’ de atrair imigrantes ‘ativos, inteligentes e industriosos’ para o Brasil, diz Diário de Minas em 1867

Por Gustavo Barreto (*)
Trecho da capa do Diário de Minas, edição de 9 de outubro de 1867

Trecho da capa do Diário de Minas, edição de 9 de outubro de 1867

No dia 9 de outubro de 18671 e em meio ao aumento cada vez mais crescente da imigração no país, o Diário de Minas repercute a chegada de cidadãos dos Estados Unidos que haviam fugido da sangrenta guerra civil norte-americana, encerrada dois anos antes. O jornal se preocupa, na verdade, com a atração dos norte-americanos para Minas Gerais, dado que, segundo o periódico, a maior parte preferia as províncias de São Paulo e do Rio Grande do Sul.

O Diário de Minas comemora a chegada, dois meses antes, de “algumas dezenas de cidadãos norte-americanos” e suas famílias que se dirigiram à capital da província (à época Ouro Preto). O jornal elogia a recepção promovida pelo governo, bem como a alocação dos colonos às margens do Rio das Velhas (próximo da capital). Apesar de destacar a exuberante e rica natureza da região, o jornal alerta, diante da grande quantidade de montanhas, para a dificuldade de transporte na região. “Este fatal inconveniente tambem por certo deve ter arredado della os colonos estrangeiros que de preferencia procurão as provincias de S. Paulo, S. Catharina e Rio Grande do Sul”, observa o diário.

O Diário de Minas sustenta que, talvez devido a esta dificuldade, Minas possui apenas uma colônia – alemã, situada em Juiz de Fora e “vantajosamente estabelecida na proximidade da provincia do Rio de Janeiro à margem de uma grande estrada de rodagem”. O jornal reivindica que a prolongação de uma estrada de ferro que estava sendo construída pelo governo alcance o Vale do Rio das Velhas.

O jornal mineiro critica a “imprensa opposicionista da côrte”, que teria demonstrado “apprehensões funestas” acerca da emigração norte-americana, os julgando “senão o lixo da população de Nova-York, que deixavão seo paiz por necessidade ou por espirito de vagabundagem, homens turbulentos e pouco affeitos ao trabalho, e dos quaes nenhum beneficio, mas antes males se devião esperar”. Ao contrário, diz o Diário de Minas, os colonos que seguem para a província mineira são “homens importantes e abastados de Luisiana e da Carolina do Sul, que se puzerão a testa dos grupos emigrantes, compostos de camponezes laboriosos e morigerados com suas famílias”. Abandonando sua pátria, que se tornou “odiosa”, procuram apenas um canto do mundo “onde vivão tranquilamente do fructo de seo trabalho”. O jornal se impressiona com a presença de um senhor de 90 anos de idade que liderava um grupo de norte-americanos de 16 a 20 pessoas.

O Diário de Minas opõe os “activos, intelligentes e industriosos” imigrantes, que iriam aumentar os elementos da prosperidade e da riqueza nacional, a “essas companhias” que exploram o “nosso solo para arrancar-lhe todas as suas immensas riquezas mineraes, e transportal-as para seo paiz, não deixando entre nós outros vestigios de sua estada de que montões de cascalho, terra revolta e minas exhauridas”. Ao contrário dessas empresas, diz o periódico, os novos colonos vêm “plantar entre nós os sos lares; esse solo, que vão lavrar e regar com seo fecundo suor, tem de produzir o pão para seus filhos, e a arvore, que plantarem á porta de seo novo albergue, tem para o futuro de abrigar com sua sombra sua numerosa descendencia”. Os norte-americanos seriam “vítimas do partido vencedor”, arrisca o jornal, e cabe agora ao “hospitaleiro Brazil acolher em seo seio grande parte dessas infelizes victimas”.

A edição 14 de julho2 do mesmo diário já havia acrescentado argumentos sobre o tema, afirmando que o governo deveria atrair colonos para o país nomeando agentes que “os fossem alliciar em diversas cidades da Europa”. O Diário de Minas argumenta que, “por mais modesta que seja a posição de qualquer individuo em seo paiz, não se pode razoavelmente esperar que elle abandone patria, amigos e parentes para atirar-se ao desconhecido, expondo-se assim a peiorar (sic) as condições em que vivia”. A posição, aparentemente razoável, serve na verdade para atacar a qualidade dos imigrantes atraídos pelo governo até aquele momento. “Colonos desmoralisados e pouco industriosos, a escoria da sociedade européa, eis o que nos derão em troca de nossos milhões despendidos”, diz o jornal, se referindo indiretamente sobretudo aos portugueses de Açores e aos espanhóis das Ilhas Canárias.

O quadro no entanto está mudando, sustenta o Diário de Minas ao elogiar ações mais recentes. Segundo o jornal, o governo tem eficazmente auxiliado associações particulares para tornar conhecidos, em outros países, “os grandes recursos deste solo abençoado”. O redator argumenta ainda que a revolução que “ensaguentou a grande republica norte-americana, ameaçando dividil-a”, oferece ao Brasil uma “magnifica opportunidade de provermos a esta palpitante necessidade do paiz, a eliminação do deserto”.

Os norte-americanos trariam consigo o seu “amor ao trabalho”, bem como seus “processos agrícolas” e capitais, “que virão fecundar efficazmente as nossas fontes de riqueza”. E acrescenta: “Taes são, ligeiramente expostos, os motivos que nos fazem preferir a qualquer outra a immigração dos Estados-Unidos”. O Diário de Minas acredita também que a imprensa possui um papel importante nesta missão: “Promove-la e anima-la [a imigração norte-americana] é hoje um dever para a imprensa que sabe collocar-se na altura de sua missão, e não se contenta com as discussões estereis de uma politica estreita e pessoal, deixando em olvido os verdadeiros interesses do paiz”.

NOTAS

1 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=376523&pagfis=1303&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader#

2 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=376523&pagfis=1051&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader#

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(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_) é jornalista. Acesse também pelo Facebook (www.facebook.com/gustavo.barreto.rio)

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