Dois cubanos “refugiados” que não pediram refúgio: a persistência do anticomunismo na imprensa brasileira

Por Gustavo Barreto (*)
Ahmet Öner, empresário turco da alemã Box-Promotion e acusado de aliciar cubanos no Brasil em 2007, teve sua tese comprada por grande parte da imprensa brasileira: boxeadores teriam sido “vítimas de pressão psicológica” para voltar para Cuba. Foto: AP

Ahmet Öner, empresário turco da alemã Box-Promotion e acusado de aliciar cubanos no Brasil em 2007, teve sua tese comprada por grande parte da imprensa brasileira: boxeadores teriam sido “vítimas de pressão psicológica” para voltar para Cuba. Foto: AP

Um dos episódios mais marcantes do ano de 2007 foi o caso dos boxeadores cubanos que teriam desertado ao participar dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro, em julho. Inicialmente, a história foi contada pela imprensa da seguinte forma: dois boxeadores cubanos – Guillermo Rigoundeaux, de 26 anos, e Erislandy Lara, de 24 anos – abandonaram a delegação do seu país durante esta competição internacional, encerrada no dia 29 de julho. Pouco depois, no dia 2 de agosto, ambos foram localizados em Araruama, na Região dos Lagos, interior do Rio de Janeiro, sendo deportados na noite de sábado (4).1

A Polícia Federal (PF) informou, a princípio, que os dois cubanos haviam declarado seu desejo de voltar para Cuba, versão reafirmada pelo próprio procurador da República envolvido voluntariamente no caso, Leonardo Luiz de Figueiredo Costa, que atuava à época no Ministério Público Federal em Niterói (RJ) e que esteve com os boxeadores no hotel onde eles estavam hospedados, sob liberdade vigiada, antes de embarcarem de volta a seu país.2 Um delegado da Polícia Federal do Rio, Felício Laterça, informou ainda que as despesas da viagem foram pagas pelo governo cubano3, fazendo a imprensa sugerir – mesmo contrariando a informação dos próprios cubanos – de que a devolução forçada havia acontecido.

No depoimento à Polícia Federal em Niterói, os boxeadores contaram que haviam deixado a Vila Pan-Americana, onde estavam hospedados, em companhia de dois empresários: um alemão e outro cubano que “prometeram levá-los para a Europa onde fariam carreira como lutadores profissionais”. Conforme relatou o portal G1, os atletas disseram que, depois disso, “foram mantidos incomunicáveis” (pelos empresários) e “falaram que estão arrependidos e querem voltar pra casa”. A matéria do G1 acrescenta: “Os boxeadores recusaram a assistência de advogados que foram até a delegacia em nome dos empresários. Os advogados se negaram a ir embora e foram autuados por desacato e desobediência”.4

Uma semana depois de os cubanos terem deixado o país, o então secretário nacional de Justiça, Antonio Carlos Biscaia, admitiu que o instrumento jurídico utilizado foi a deportação, afirmando no entanto que a Polícia Federal havia cometido “um equívoco” e reafirmando que os cubanos haviam pedido para voltar ao país, sendo aquela forma a mais ágil encontrada naquele momento. “Ele [o delegado da PF] colocou termo de deportação, mas na realidade a saída foi espontânea e, juridicamente, não se trata de uma deportação. A autoridade policial cometeu um equívoco. Eles não estavam em situação ilegal no país. Também não entraram no Brasil de maneira ilegal. A situação de fato deles é de repatriados”, afirmou o secretário.5

A ideologização do noticiário, consequência do sentimento anticomunista ao qual a imprensa brasileira de grande circulação historicamente se vincula – conforme longamente demonstrado neste trabalho –, fez com que parte da História fosse deixada de lado: o que faziam os cubanos em Araruama? O jornal Extra foi o primeiro a descobrir: os boxeadores estavam em uma pousada “regada a gargalhadas, sexo, cerveja, sauna e bons pratos da culinária local”. Diante de tanta fartura, acrescenta o jornal carioca, “os cubanos não cogitavam regressar ao país de origem. O sonho só acabou quando os lutadores foram abandonados por um agenciador”. Segundo conta o jornal, os dois esportistas foram acompanhados pelo empresário alemão Thomas Doering, que estaria planejando levar os cubanos para lutar na Europa, além de “um espanhol, um cicerone carioca e três prostitutas, que trabalhariam em um prostíbulo da região”.6

Ainda segundo o Extra, “os cubanos foram abandonados na pousada por Doering na manhã da última quinta-feira [2 de agosto], embarcando para a Alemanha”. O alemão estava acompanhado apenas por um cubano, que desempenhava a função de olheiro: “Eles teriam dado R$ 70 mil para os pugilistas, que teriam usado o dinheiro na farra. Pessoas ouvidas pelo “Extra” contaram que os dois eram muito generosos nas gorjetas. Os atletas ficaram na pousada até 15h. Ao sair, caminharam até um guarda-vidas da prefeitura de Araruama. Lara [um dos cubanos] apontou para o celular e repetiu “polícia, polícia””.

Depois disso, os cubanos repetiram várias vezes – conforme descrito acima – que queriam retornar a Cuba. Para completar este confuso cenário, quando chegaram a Havana os cubanos declararam ao jornal estatal local Granma que a Polícia Federal brasileira teria tentado convencê-los a ficar no Brasil, o que foi negado pela PF. No entanto, o delegado da Polícia Federal responsável pelo caso, Felício Laterça, disse no dia em que os dois deixaram o Brasil, no sábado (4), que a dupla cubana “se recusou a receber o status de refugiada do governo brasileiro e que será deportada para o país caribenho”, o que indica que o status foi, portanto, pelo menos oferecido.

Um dos principais personagens era Ahmet Öner, segundo a Folha de S. Paulo um “turco baseado na Alemanha que admitiu ter bancado a suposta deserção dos pugilistas”. Öner, que segundo a Folha já teria sob contrato quatro “cubanos desertores”, sustentou que ambos foram “vítimas de pressão psicológica” e “coagidos” a partir de supostas ameaças a parentes em Havana. O turco – que, junto com os demais empresários, foi alvo de investigação para apurar o suposto aliciamento dos cubanos7 – disse ao jornal paulista que ambos queriam ir para a Alemanha: “Assinaram contrato. Eles não foram forçados a nada”.8

À polícia, no entanto, os atletas disseram que seus passaportes ficaram com representantes da empresa alemã “que os ajudaram na fuga da Vila do Pan”. Ainda segundo os cubanos, eles “saíram com dois alemães para comprar videogame e, após fazê-lo, foram ”entorpecidos” ao beber um energético em Copacabana”. Os alemães deixaram o Brasil durante a semana, disse a Polícia Federal, que à época declarou que “não descarta investigar a atuação da Box-Promotion [empresa alemã]”.9 Sobre a polêmica, o presidente cubano, Fidel Castro, disse que os cubanos seriam tratados com justiça e a própria esposa de um deles afirmou que “acreditava no perdão do líder cubano”.10

Sobre o episódio, o jornalista Luis Nassif sintetizou a cobertura da imprensa à época: “Era como se eles tivessem sido despachados presos e algemados para a ilha”. De nada adiantou, afirmou Nassif, o Ministério da Justiça informar que já havia concedido asilo a outros atletas (e que portanto este não era um impedimento para fazê-lo também neste caso); que o depoimento dos cubanos foi acompanhado por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Ministério Público; assim como, para a imprensa, pouco interessou as evidências fornecidas pelo Extra acerca de um evidente caso de aliciamento dos cubanos por parte dos empresários, ou ainda a versão dos próprios cubanos de que eles desejavam voltar ao seu país após terem sido ludibriados pela empresa alemã.11 Sobre o mesmo tema, Alberto Dines acrescentou: “Como tudo o que acontece hoje no Brasil, o caso dos atletas cubanos foi intensamente politizado”.12

Se o caso dos boxeadores cubanos mostrou uma vez mais que a imprensa brasileira produz frequentemente notícias de modo profundamente vinculado a interesses político-ideológicos e econômicos, por outro lado também serviu para produzir uma matéria parcialmente informativa, no caso do jornal O Estado de S. Paulo, sobre a questão dos refugiados no Brasil. Assim, em sua edição de 12 de agosto de 2007, o jornal paulista informou que o país abrigava, à época, quase 3.500 refugiados de 69 países, com outros 1.623 estrangeiros aguardando o reconhecimento do status de refugiados só na cidade de São Paulo. A matéria retoma a história sugerindo que os dois cubanos foram “detidos” pela Polícia Federal e despachados para Cuba, a pedido de Fidel Castro.

A rapidez com quem foram “deportados”, afirma o Estado, contrasta com a de outros estrangeiros que “passam por seguidas entrevistas e preenchem longas papeladas que são remetidas ao Comitê Nacional para Refugiados (Conare), órgão formado por representantes de vários ministérios, além da PF e da Cáritas, instituição ligada à Igreja Católica – que há 25 anos se dedica à assistência aos refugiados no Brasil”. A matéria do Estado confunde, portanto, dois tipos de status distintos: um daqueles estrangeiros que desejam ficar no país (caso dos solicitantes de refúgio) e um outro daqueles que desejam ser repatriados (caso dos boxeadores cubanos). Mesmo assim, ambos são colocados em pé de igualdade, sem qualquer menção a essa notável distinção que derrubaria a comparação.

O Estado de S. Paulo adota a linha do aliciador turco citado pela Folha de S. Paulo de que os cubanos teriam sofrido “pressão psicológica” para fazer o que fizeram, mesmo informando timidamente que os cubanos “informaram que queriam voltar para Havana”. Em uma entrevista especial sobre o tema, um especialista ouvido pelo Estado chama a ação do governo de “ato totalitário”, o acusando de “devolver dois cidadãos”, o que teria posto em “xeque uma rica tradição da diplomacia brasileira de proteger pessoas e buscar saídas diplomáticas, mesmo nos mais difíceis contenciosos”. O cientista político Fúlvio Fonseca comenta o fato de os cubanos terem declarado que gostariam de voltar a Cuba, afirmando que isso “até torna a análise mais delicada”. No entanto, ele acrescenta: “Até que ponto esse era de fato o desejo ou até que ponto foram pressionados a isso, não temos como saber”.

Além de reforçar, sem qualquer evidência, que os cubanos sofreram “pressão” para pedirem o retorno a seu país, a fonte do jornal não explica exatamente de qual “rica tradição da diplomacia brasileira” está falando. Entre as opções desta tradição temos os governos imperiais que só aceitavam brancos europeus válidos como imigrantes; temos ainda os primeiros governos republicanos que deportavam “agitadores” e quaisquer outros elementos tidos como “subversivos” – apoiados, conforme demonstramos no capítulo deste trabalho sobre o tema, pelo próprio jornal O Estado de S. Paulo desde o início da década de 1890; temos também o governo Vargas, que impediu a entrada de milhares de imigrantes judeus e outros estrangeiros tidos como comunistas ou “perigosos”, os condenando a permanecer na Europa mesmo sob o avanço dos nazistas, conforme também descrevemos anteriormente; e, por fim, o regime militar mais recente (1964-1985), que não só perseguiu, torturou e assassinou opositores políticos como se uniu a outros regimes ditatoriais para perseguir estrangeiros no Brasil, sobretudo latino-americanos de países vizinhos. Ficamos com esta questão: qual das tradições?

A reportagem do Estado de 12 de agosto acrescenta dados sobre o refúgio no Brasil, citando o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR): dos quase 3.500 refugiados reconhecidos pelo governo brasileiro à época, 78% vieram da África. E acrescenta: “O Congo13 é uma das principais origens. As guerras no Líbano e no Iraque também aumentaram as estatísticas. Na América Latina, o fluxo de colombianos cresceu”. Em seguida outras informações: quem os ajuda, de quais continentes vêm, faixa etária, gênero, direitos e legislação em vigor. Abaixo, um gráfico mostra o passo a passo para a solicitação do status de refugiado, o que diz o direito internacional, quantas pessoas possuem esse status pelo mundo (14 milhões) e quantas já haviam sido atendidas pela agência da ONU (50 milhões).

Não exatamente um refugiado, e sim a ideologia anticomunista da imprensa, produziu uma das mais completas matérias informativas sobre o tema no ano de 2007, com o evidente propósito de sugerir aos leitores que dois “perseguidos políticos” foram “devolvidos” cruelmente pelo governo brasileiro a uma “ditadura comunista”.

NOTAS

1 G1. Atletas cubanos são deportados, diz PF. 05 ago. 2007. Disponível em http://glo.bo/1Es7joU. Acesso em 10 jan. 2015.

2 http://www.jb.com.br/esportes/noticias/2007/08/09/procurador-avalia-deportacao-de-atletas-cubanos-pouco-transparente/

3 G1. Atletas cubanos são deportados, diz PF. 05 ago. 2007. Disponível em http://glo.bo/1Es7joU. Acesso em 10 jan. 2015.

4 G1. Atletas cubanos são deportados, diz PF. 05 ago. 2007. Disponível em http://glo.bo/1Es7joU. Acesso em 10 jan. 2015.

5 FSP. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1008200720.htm

6 http://extra.globo.com/noticias/mundo/boxeadores-cubanos-dizem-que-pf-tentou-convence-los-ficar-no-brasil-715462.html

7 http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL82702-5606,00-MPF+INSTAURA+INQUERITO+SOBRE+ATLETAS+CUBANOS.html

8 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0408200709.htm

9 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0408200709.htm

10 http://extra.globo.com/noticias/mundo/boxeadores-cubanos-dizem-que-pf-tentou-convence-los-ficar-no-brasil-715462.html

11 http://www.fndc.org.br/clipping/o-roda-viva-e-a-fabula-dos-lutadores-cubanos-deportados-930278/

12 http://bit.ly/1BSggZ0

13 Citado apenas como Congo, impedindo que saibamos de qual dos dois países se trata: República do Congo ou República Democrática do Congo.

Share
(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_) é jornalista. Acesse também pelo Facebook (www.facebook.com/gustavo.barreto.rio)

Um pitaco sobre “Dois cubanos “refugiados” que não pediram refúgio: a persistência do anticomunismo na imprensa brasileira

  1. Porque vc não escreve onde onde estão os atletas hoje em dia? Ah, porque não te interessa falar a verdade ne? Te interessa criar opinião baseada em fatos que nao são verdadeiros. Isso sim é ser fascista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *