Chegam mais deslocados da guerra: “elementos sadios, fortes e dispostos ao trabalho”

Por Gustavo Barreto (*)
Diário da Noite, edição de 16 de dezembro de 1948

Diário da Noite, edição de 16 de dezembro de 1948

O carioca Diário da Noite, do grupo Diários Associados, destaca em sua edição de 16 de dezembro de 19481 a chegada ao Rio de Janeiro do “navio-transporte” norte-americano General Black, que aportou nas imediações da então hospedaria de imigrantes, a Ilha das Flores, “repleto de deslocados da guerra”. Segundo o jornal, a embarcação trouxe 824 imigrantes provenientes dos campos da Organização Internacional de Refugiados (OIR) e “recolhidos na Áustria e Alemanha”.

O jornal destaca o gênero (a maioria homens), as nacionalidades (ucranianos, poloneses, iugoslavos e húngaros) e o número de agricultores (“apenas 152”). Os demais, acrescenta, são pedreiros, mecânicos, carpinteiros, marceneiros, engenheiros de minas, eletricistas e químicos. “Um dos imigrantes é especialista em açúcar”, completa a matéria. Além disso, a reportagem afirma ter constatado que, “dentre as levas de imigrantes que já vieram para o nosso país, a presente é a única constituída de elementos sadios, fortes e dispostos ao trabalho”.

Diário da Noite, edição de 16 de dezembro de 1948

Diário da Noite, edição de 16 de dezembro de 1948

O médico do Departamento Nacional de Saúde que acompanhou os deslocados, informa o diário, permaneceu 26 meses na Europa, “comissionado” pela OIR. Ele informou ao jornal que “existem atualmente no Velho Mundo num dos campos da O.I.R., cerca de 3 mil deslocados, prontos para embarcar para o Brasil”, acrescentando que “nada menos que 800 mil refugiados estão espalhados pelos acampamentos da Europa, desejando emigrar”.

Predominam nesses campos, diz a matéria citando o médico, deslocados provenientes da Rússia “e países satélites” que “não querem regressar às suas terras” . Ele “esclareceu” que o país “lucrara tanto biologicamente como economicamente com esses imigrantes”, pois eles se “adaptaram rapidamente ao nosso clima, encontrando apenas duas dificuldades: o idioma e o sistema de trabalho”.

O então diretor do Departamento Nacional de Imigração declarou à reportagem que todos os imigrantes que chegam à Ilha das Flores “são reclassificados de acordo com as suas profissões”, sendo “imediatamente encaminhados aos Estados que alegam falta de braços para a lavoura”.

NOTA

1 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=221961_02&pagfis=48415&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader#

(*) Gustavo Barreto (@gustavobarreto_), 39, é jornalista, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (www.facebook.com/gustavo.barreto.rio)

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